A guerra dos sexos chegou ao vinho

Posted on 9/15/2015 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE


Os homens continuam a ter um papel fundamental na escolha dos vinhos, mas elas já estão a conquistar território

"As mulheres têm vindo a ter um peso preponderante em várias áreas da sociedade e quem trabalha na área alimentar percebe que esse peso já vem de há muito e em subsectores menos tradicionais têm vindo a ganhar muita importância", explicou ao iPedro Guerreiro, coordenador do curso de "Food & Beverage" do IPAM - The Marketing School. 

É no vinho que elas se têm vindo a afirmar. Não será novidade sentar-se na mesa de um restaurante com alguém do sexo oposto, pedirem vinho e o empregado perguntar: "Quem vai experimentar?" Os tempos mudam e os gostos também. Têm sido registadas alterações significativas no comportamento do consumidor de vinhos, notando-se que existe um interesse crescente de consumidores mais novos e do sexo feminino. "Actualmente, as mulheres relacionam-se com o vinho de uma forma cada vez mais diferente do passado. São elas quem compra o vinho lá para casa e, por isso, são tendencialmente o target mais importante para quem trabalha no sector", disse.

Apesar de estarmos perante um sector ainda muito conservador, "dominado por homens", o paradigma tem vindo a alterar-se. Segundo o estudo realizado sobretudo em zonas urbanas e apresentado pelo responsável de 36 anos, o interesse das mulheres por vinhos tem vindo a crescer, levando a que 40% seja responsável pela compra das garrafas. "São as mulheres que fazem as compras no mercado dos produtos alimentares e é nas grandes superfícies que 80% dos vinhos são comercializados em Portugal. Se elas fazem as compras e se consomem cada vez mais [embora ainda menos que os homens] ou sabem cada vez mais sobre vinhos, é natural que sejam elas a fazer as compras deste produto. 

Se fizéssemos a mesma análise há uns tempos não tínhamos este valor e tenho a certeza que no futuro não vai ser apenas 40% mas muito mais", sustentou. Estudos revelam que, nos Estados Unidos, apesar de as mulheres representarem cerca de metade da população, estas são responsáveis por cerca de 75% das decisões de compra.

Em Portugal, no que se refere ao consumo de vinho, o target situa-se entre os 25 e os 44 anos. Porquê? "Têm um perfil sensorial muito mais exigente do que o do homem." Juntando esta premissa ao facto de terem uma vida socialmente activa, onde o vinho não pode faltar, "é natural que as mulheres ganhem algum peso nesta área", sublinha o coordenador.

E é o vinho branco o mais consumido pelo sexo feminino. "As mulheres que bebem mais frequentemente - entre uma a sete vezes por semana - preferem vinhos brancos, leves e frutados e vinhos tintos leves. Isto está directamente associado à frequência de consumos. Vinhos muito pesados são mais enjoativos, portanto quem bebe com mais frequência prefere algo menos forte." Más notícias para os produtores de tinto e de espumantes, que vão ter de pensar na forma como as mulheres lidam com estes produtos, pois "o estudo demonstrou que há alguma rejeição a estes vinhos", afirmou Pedro Guerreiro.

"Creio que tenha a ver com o perfil do produto, mas tem também a ver com o conservadorismo do mercado. Ou seja, o sector vitivinícola é um sector que depende mais da produção do que das marcas ou do mercado e isso é ainda mais acentuado quando falamos de vinho do Porto e de espumantes, notando-se o conservadorismo. Acho que isso terá tudo a ver com esta rejeição", respondeu quando questionado quanto ao motivo desta tendência.

SMART SHOPPERS O conceito não é novo. É notória a preocupação do consumidor na relação preço/qualidade de qualquer produto. Aqui não é diferente. "As mulheres estão sempre à procura de vinhos com qualidade a preços competitivos e isso é um dos motivos de decisão das compras que fazem. O que pode influenciar o incremento da compra de vinho? Os preços mais baixos e a enorme necessidade de informação sobre vinhos", dois factores que têm levado ao aumento do consumo.

Com um estilo próprio, característico de cada mulher, "no futuro, podemos esperar um mercado vitivinícola cada vez mais dependente das mulheres. São elas que vão decidir o perfil de vinhos e de marcas que se consomem em casa dos portugueses e portanto o sector tem de perceber mais sobre a sua forma de decidir as compras", reforçou o investigador.

E onde ficam os homens nesta história? Em tom de brincadeira, Pedro Guerreiro diz que "ficam encostados a um canto." "Acho que as mulheres na área alimentar são muito mais evoluídas do que os homens. Vamos ter de pedalar muito para poder garantir o lugar." Pedro, porém, frisa que estamos perante um mercado muito competitivo e ainda muito segmentado. "Isto significa que o gosto predominante dos homens nunca será ignorado. Mas não tenho dúvidas que o sector vai ter de passar a olhar para a decisão de compra das mulheres de forma diferente", concluiu.

Beatriz Silva